24 fevereiro 2009

Relato de Ultra - BR217!!

Brazil 135 Ultramarathon


São 217 km em até 60 horas, inteiramente realizados na região montanhosa da Serra da Mantiqueira, no trecho mais difícil do “Caminho da Fé” entre Poços de Caldas e Paraisópolis.


  • Parte da Copa do Mundo de Corridas de 135 Milhas -"BAD135 World Cup"

    – Uma iniciativa da empresa AdventureCorps Inc:




    • Brazil 135 (217 km Montanhas)

    • Badwater135 (217 km no deserto da Califórnia)

    • Arrowhead135 (217 km no Canadá em temperaturas

      médias de -40°c).


Por suas imensas dificuldades técnicas, menos de 90 Atletas em todo o mundo possuem a medalha de

“finisher” desta competição.

.

A inscrição se dá por convite e obedece a um rígido critério de eleição:


1- Ter terminado oficialmente a Ultramaratona Brazil 135 em anos anteriores;

2- Ter terminado oficialmente pelo menos uma (1) prova oficial da Copa

do Mundo de Corridas de 135 Milhas "BAD135 - World Cup" quer seja Badwater Ultramaratona ou Arrowhead Ultramaratona.

3- Ter terminado oficialmente pelo menos uma (1) prova com mais de 160 Kms (100 Milhas).

4- Ter terminado oficialmente pelo menos duas (2) provas com mais de 80 Kms (50 Milhas)

contínuos.

5- Ter terminado oficialmente pelo menos uma (1) prova com 24 horas ou mais continuas.


Tudo começou em outubro de 2008


O dialogo se deu mais ou menos assim:


- Mestre, estou com uma “idéia errada ” rondando aqui ó.

- Que seria...

- Br 135, acha que eu tenho possibilidade de fazer?

- Talvez. Mas... Você tem certeza que quer fazer isso?

- Absoluta.

- Então bora fazer.


Neste dia, após a conversa com meu técnico Vanderlei Branca, estava lançada a semente para o que seria o maior desafio da minha vida... até então.

27/09 - Próximo passo, mandei um e-mail para o “Race Director” da Brazil 135, Dr. Mario Lacerda informando meu currículo de maratonas e ultras, que na época já era bem razoável e incluía todas as maratonas brasileiras num único ano, a Comrades, Desafio de Itapeva, Maresias Bertioga (solo) alem de estar inscrito para a Ultramaratona de 24 hs dos Fuzileiros Navais, onde pretendia fazer mais de 160 km( tive uma séria complicação renal durante a prova e acabei fechando em 136 km ,o que ainda me garantiu o 3° lugar na faixa). Permaneci duas semanas na agonia, esperando a chegada de um e-mail que me confirmasse o aceite...

06/10 – Acordei pela manhã e ao abrir meu e-mail lá estava a tão sonhada resposta: Prezado Gentil Jorge Alves, Você foi aceito para participar da Brazil 135 Ultramarathon 2009.!

Só consegui responder o seguinte: Uhhu! Oba! Yupiiiiiiiiii!!!  O Mario nunca deve ter recebido um ok tão efusivo.

A partir daí começamos os treinos específicos, acompanhamento nutricional e psicológico. Em Novembro participei da Ultra de 24 hs dos Fuzileiros. Excelente experiência sobre todos os aspectos: 24 horas sem dormir, dificuldades na hidratação/alimentação e uma insuficiência renal aguda que quase me leva ao hospital. Tomei tudo isto como um aprendizado do que “não fazer” na Br. Alem disso tive a oportunidade de conhecer , alem do próprio Mario Lacerda e sua esposa Eliana, vários dos amigos que correram a prova comigo.

Retornando das 24 hs comecei a pensar na equipe. Precisava de um bom piloto, um suporte logístico (alimentação/hidratação) e um Pacer.

A função do pacer é correr junto com o atleta nos trechos mais complicados da prova imprimindo

um ritmo. Para piloto convidei meu amigo de infância Luis Campello, apoio ninguém melhor que

minha esposa Akeli. Restava a escolha do pacer. Depois de muitas voltas e reviravoltas optei por convidar a Dra. Silvia Nobre, dos Fuzileiros Navais do Rio de Janeiro. Já havia corrido com ela em situação adversa nas 24 hs do RJ e me pareceu a atleta mais indicada para o desafio. Convite feito e aceito no ato.

Nesse meio tempo os treinos tomavam uma proporção gigantesca. Dois treinos diários com distancias entre 20 e 30 km cada. Fortalecimento geral 3 vezes por semana.

Nas ultimas semanas de janeiro ficamos por conta da compra de materiais necessários para a prova: caixas térmicas, headlamps, coletes refletivos, calças, meias, tênis, suplementos de toda espécie, isotônicos, carbogeis, etc..etc...Uma outra preocupação foi o aluguel de um veiculo grande e 4x4. Optamos por uma S10 cabine dupla turbodiesel, o que se mostrou uma sabia escolha no final.

22/01 – Véspera da Prova.

Levantamos as 5 da manha. As 6 hs nosso piloto chegou em casa e depois de carregarmos meu carro com centena de itens, partimos rumo ao aeroporto, onde tocaríamos de carro e pegaríamos a Silvia Nobre, que chegava em São Paulo vinda do RJ.

Tudo correu conforme o programado a não ser pelo detalhe de que a Localiza nos entregou um veiculo sem a lona que cobre o porta malas da S10. Como o tempo estava chuvoso improvisamos uma cobertura e às 9 horas estávamos na estrada rumo a Poços de Caldas. No caminho encontramos o restante dos atletas da Branca Esportes e conseguimos uma lona. Seguimos tranqüilos até a chegada em Poços de Caldas, por volta das 13 horas.

Pré Race Meeting – As 14 horas teve o inicio do pré race meeting. Dr. Mario falou sobre a prova, regulamentos, etc. Foram apresentados os atletas estrangeiros (Canadá, EUA, Singapura, México, Nova Zelândia, Austrália, etc..) e os campeões de edições passadas. O momento mais tenso da reunião foi a palestra para os pilotos. Devido as fortes chuvas, vários trechos das estradas estavam bloqueados. Dr. Mario foi passando rotas alternativas bastante complicadas. Eu estava na pesagem, mas acompanhava contente o Luis e a Akeli anotando tudo freneticamente.

Finda a reunião, kit na mão e instruções assimiladas fomos para o ultimo jantar de massas e nos recolhemos para tentar descansar. Apesar de toda a ansiedade consegui dormir bem, Não me recordo de ter sonhado.



23/01 – Largada

As 7 hs rumamos para o ponto de inicio em Poços de Caldas,equipado com mochila de hidratação (nos primeiros 31 km até Águas da Prata os carros de apoio não podem seguir). Após a cerimônia do Hino Nacional, foi dada a largada. O trajeto é 100% em estradas de terra. Existem apenas 9 km de trechos planos nos 217 km. Largamos numa subida acentuada. Nada comparado ao que nos esperava, mas ainda assim já deu para sentir o espírito da prova. Consegui manter um ritmo forte

até o encontro com minha equipe em Águas da Prata. Ali troquei de roupa, de meias e tênis e aproveitei para hidratar. O próximo trecho era até o Pico do Gavião. Uma elevação de 1700 metros em 15 km. Sem duvida é um dos pontos mais duros da prova. O desafio consiste em subir o pico, dar a volta no cume e retornar pelo mesmo caminho para dali seguir até o Primeiro Ponto de Apoio em Serra dos Lima.Como a informação era de que a estrada estava intransitável(o que não se confirmou) acabei seguindo sem o carro de apoio neste trecho também.

Que alegria foi encontrar minha equipe novamente na descida do Pico. Ali troquei novamente de roupa e tênis, me hidratei e seguimos. A partir deste ponto não perdemos mais contato, com o carro abrindo distancia de 3 a 8 km em média.

As 18 hs parei para a primeira refeição. Estava sentindo muito frio. Comi uma tigela de macarrão, alguns copos de chocolate quente e partimos. Neste ponto a Silvia entrou na corrida pela primeira vez. Como breve iria escurecer, colocamos nossos coletes refletivos, headlamps e fomos para os 34 km que nos separavam de Serra dos Lima. Todo atleta é obrigado a levar consigo uma estaca de sinalização. Toda vez que para por algum motivo tem que finca-la no chão para marcar o ponto onde parou. Fizemos isso na hora do jantar e...esquecemos a estaca lá. O que protagonizou um dos fatos mais inusitados da BR deste ano.

A Serra dos Lima é um pico de 1300 metros, que se estende por quase 20 km repletos de aclives e declives intermináveis. Havia chovido muito nos dias anteriores e este ponto realmente estava intransitável. Por pura falta de noção do perigo, nosso piloto Luis subiu todo o trajeto da Serra dos Lima, o que gerou espanto e terror em todos que conheciam a região e haviam usado rotas alternativas de carro para chegar ao primeiro Posto de Controle. Chegamos ao PC por volta das 23 hs. Trocamos de roupa, colocamos nossas capas de chuva, luvas e gorro. Havia começado a chover forte e a temperatura havia caído para próximo de 10 graus. Neste momento a Akeli e o Luis deram por falta da estaca. Após consultarem a organização, decidiram voltar. Desceram a mais de 80 km/h PELO MESMO CAMINHO INTRANSITAVEL. Num milagre que só pode ser atribuído a Deus, não só sobreviveram, como ENCONTRARAM A ESTACA. À noite, no breu, numa distancia imensa. Não contentes, retornaram pelo mesmo caminho intransitável a tempo de nos encontrar para repor nossos suplementos. Quem viu a cena jurou que o Luis é piloto profissional de Rally. Nenhum outro carro ousou desafiar a Serra dos Lima.

Rodamos a madrugada toda sob chuva e frio. Crisólia foi a primeira cidade. O Carro abriu distancia e nós os encontramos lá. No amanhecer do primeiro dia estávamos em Ouro Fino. Rodamos 28 km em 6 hs. Uma média muita baixa, mas optamos por nos poupar pelo frio intenso e tentar recuperar pela manhã. Mal sabíamos que o pior estava por vir.

Em Ouro Fino a Silvia foi descansar no carro. A Akeli assumiu como pacer. Chegamos ao segundo Posto de Controle em Inconfidentes com 23 hs de prova. O sono já começava a incomodar. Ali tomei um banho rápido, troquei de roupa e tênis e comi alguma coisa. Neste PC soubemos que o campeão do ano passado havia desistido. E mais algumas baixas já tinham ocorrido.


Segundo-dia

O próximo trecho era Inconfidentes – Borda da Mata. Um trecho bastante duro, cheio de subidas muito fortes e descidas. Pela primeira vez concordei que as decidas são piores. Alem do esforço de toda a musculatura para segurar o corpo nas descidas muito íngremes, o pé se desloca para frente, massacrando as unhas. Por volta das 12 hs chegamos em Borda da Mata. De lá seguimos direto para Tocos do Moji onde era nossa intenção comer e tentar algum lugar para dormir pelo menos umas duas horas.

Já estaríamos nessa ocasião com mais de 36 hs acordados. A situação começava a ficar critica. Por volta das 16 hs paramos para a segunda refeição sólida. Comemos miojo com queijo. Nada mais delicioso quando se está morto de fome. O trecho seguinte até Tocos foi muito duro. O sol estava forte e o cansaço era cada vez mais intenso. Chegamos à cidade por volta das 19 hs. Estávamos todos em frangalhos. Precisávamos urgentemente de descanso. lPara nossa infelicidade era aniversário da cidade. A única pousada estava completamente lotada e não tínhamos onde ficar. Paramos defronte a Igreja matriz. Tentamos dormir no carro, mas era impossível. Alem do desconforto o barulho era ensurdecedor. Tinha que pensar e tomar uma decisão rápida. Não adiantava de nada ficar ali parados. Tínhamos que seguir. A próxima cidade era Estiva onde haveria um Posto de Controle e segundo nos informaram um lugar para dormir 1 ou 2 horas.


O Caminho até Estiva – o ponto critico da prova


Meus amigos que já fizeram a BR haviam me alertado que tudo fica pior até Estiva. Para mim foi o ponto de inflexão da prova. O trajeto é extremamente irregular, com as maiores paredes do caminho. Por volta da meia noite a Silvia começou a dar sinais de esgotamento. Eu decidi seguir sozinho, mas a minha esposa bateu o pé que seguiria comigo. A 1 da manha eu não conseguia mais manter os olhos abertos, estava tendo alucinações visuais de toda espécie e era impossível manter o foco do pensamento. Vi um outdoor no meio da estrada, vi pessoas, luzes...tudo. Estávamos no km 170 e o seguinte dialogo aconteceu:

- Akeli, eu não agüento mais. Preciso dormir. Acho que vou parar.

- Você não vai parar DE JEITO NENHUM. VAMOS.

E assim segui, rezando para Estiva chegar.

Avistamos o Posto de Controle as 02h30min da manha. A coordenadora do PC me ofereceu sopa, chocolate. Recusei. Só precisava de um banho e algum lugar para deitar por um tempo. Tomamos uma ducha e dormimos por 1h30. Acordamos as 04h30min, recuperados. Comi um lanche e seguimos viagem. Logo o sol nasceria e as esperanças se renovariam.


Terceiro dia – 48 – 52 hs

O próximo trecho era de Estiva a Consolação. Com as forças de volta o objetivo era apenas acabar, o mais rápido possível. Por volta das 10h 30min alcançamos o checkpoint de Consolação. Ali me informaram que a atleta Ana Levada estava a pouco mais de 30 min na minha frente. Faltavam 17 km e decidi ir para o tudo ou nada, tentar ganhar algumas posições. Faltando menos de 10 km para o final da prova passei a Ana Levada. Continuei correndo firme... tão firme que não percebi uma das setas indicativas do caminho e passei direto. Fiquei fora de rota por 1 km quando o pacer da Ana passou por mim de carro e me avisou do erro. Retornei pelo mesmo caminho (total 2km) . A Ana já havia ganhado a dianteira novamente. Aumentei o ritmo e consegui alcançá-la uma segunda vez.

Mantive o ritmo acelerado e faltando menos de 3 km para o fim da prova me informaram que o Ironman de singapura, Mr NGHEETHUAT LIM , encontrava-se a mais ou menos 1 km na minha frente. Fiz as contas de cabeça e para alcançá-lo teria que aumentar ainda mais o ritmo. Foi o que fizemos. Faltando 1,5 km para o final avistamos o atleta de Singapura no topo da ultima subida (uns 700 metros). Subimos em ritmo mais que frenético.

A Silvia entoando o HUP HUP militar. Do topo já avistamos o asfalto e Mr. Lim.

Corri, corri como nunca corri antes. Ao perceber que eu estava me aproximando Mr.Lim também aumentou o ritmo. Passei por ele a menos de 500 mts da chegada num ritmo de 3:30 min/km. Garantindo assim a 25° colocação. Não percebi, mas pelo que me contaram, no momento da minha chegada passava pela praça um cortejo fúnebre. Segundo consta, atravessei o cortejo gritando: Abreeeeeeeeeee, pistaaaaaaaaaaaaaaa!

Peço oficialmente desculpas ao falecido.

Cruzei a linha de chegada e foi só emoção. 217 km , 52 horas, Missão dada, missão cumprida. Fiquei ali na chegada aguardando os outros atletas. Cada chegada, mais emoção. A noite fomos receber as medalhar de finisher e as camisetas no palco da praça. Era aniversario de Paraisopolis e a premiação foi parte dos festejos.

Ficam meus agradecimentos eternos :


Ao meu piloto e amigo de infância – Luis Carlos Campello – pela bravura, ousadia e destreza no volante,

A minha Pacer Silvia Nobre – pela força, garra e todo o incentivo

A minha Esposa Akeli Souza – pela dedicação sem limites, pela resistência e por todo o apoio nesta e em todas as provas.

Ao Meu Mestre – Vanderlei Branca sem esse sonho não teria sido possível.


Retornando a São Paulo, verifiquei que para os concluintes da BR 135 haveria ainda um prazo para inscrição na Badwater, a mais dura prova do mundo.


No dia seguinte um dialogo aconteceu:

- Mestre, estou com uma idéia errada rondando aqui ó.

- Que seria...

Mas essa já é uma outra história.


Gentil Jorge Alves Junior

Ultramaratonista

www.ultramaratonista.com

Um comentário:

Jorge disse...

Realmente essa BR 217 e a chave para as outras ultras no mundo, teve 3 amigos meus que corre na mesma equipe do que eu ACORUJA que fizeram essa ultra (ALEXANDRE, PETER E RODRIGO), bem que eu gostaria de fazer uma ultra dessa mais tem que ter patrocinio né.
Muito legal o relato do Gentil, Parabéns!!!

JORGE CERQUEIRA
www.jmaratona.blogspot.com